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Lavoura no Music Non Stop

Saiu uma bela matéria/resenha dos nossos novos singles no portal de música da UOL “Music Non Stop”, escrita pelo DJ e produtor Jovem Palerosi, leia aqui em nosso site ou diretamente no portal UOL no link:
https://musicnonstop.uol.com.br/lavoura-inspira-se-no-futurismo-indigena-como-ritual-de-guerrilha-e-experimentacao/

POR JOVEM PALEROSI

Inspirados por Raduan Nassar, pela cultura do sample e pela estética do arrastão, o Lavoura nasceu em Bauru no ano de 2003, em um ambiente fértil e intenso, que conectou diversos artistas, formando o Coletivo Samacô e a banda Mercado de Peixe (que alguns dos músicos também fazem parte). Uma década e meia se passou desde as primeiras produções eletrônicas, remixando nos computadores das repúblicas, depois veio a consolidação do formato banda, a transição para a capital e a integração com diversos artistas e projetos multimídia.

Tudo isso fez o grupo maturar seu som e peneirar os elementos da cultura urbana e conceitos ancestrais para ir construindo com cada vez mais detalhes os temas que passam por vibes como nujazz, funk psicodélico e eletrônica downtempo, em diálogo direto com a música brasileira, combinando com sensibilidade e naturalidade os timbres eletrônicos e os instrumentos orgânicos.

Em formato de quarteto durante quase dez anos, eles foram recebendo alguns músicos como convidados nos shows, e naturalmente estes foram se juntando no processo criativo até se integrar à banda, que agora passa a ser um hepteto, com Caleb Mascarenhas (synths, beats); Fabiano Alcântara (baixo), Fernando TRZ Falcoski (synths, piano elétrico, beats); Junião (percussão, beats); Marcelo Monteiro (sax, flauta); Thiago Duar (guitarra, beats) e Paulo Pires (bateria, drum machine, beats).

As multifaces de cada uma destas sete mentes criativas e hiperativas (seriam inumeráveis projetos que participam a se contar), ajudaram a semear novas palhetas sonoras e fusões que chegam agora em registro através de “Mirã”. O trabalho é composto por dois singles, inspirados pelo futurismo indígena, como um ritual de resistência, guerrilha e experimentação, sob uma perspectiva sul-americana e decolonial, abordando a música em sua mais bela função, a espiritual.

A capa do Paulo Pires, que além da bateria e dos beats, é artista visual, possui referências pré-colombianas e amazônicas, em contraste com a cidade cosmopolita que nos tampa a visão com seus prédios, elevados e vias expressas. Como me explicou o baixista Fabiano: “ O índio da frente é um Bororo. As naves são inspiradas nos muiraquitãs, amuletos das índias guerreiras dos povos Tapajós e Konduri.” Como se os verdadeiros donos destas terras viessem nos guiar novamente para encontrar a paz e as luzes no meio desta selva monocromática.

Ametista começa com o sax fazendo uma frase que abre os caminhos e synths pads criando um clima bem sensorial. Aos poucos, os elementos rítmicos se juntam e formam um groove macio e flutuante até chegar ao tema, marcante, desta vez acompanhado por mais sintetizadores, dobrando e pincelando texturas, novas camadas. Os synths entram em conversas hipnóticas, sempre voltando ao tema, mas depois somos levados também para novas cenas, igualmente coloridas. O som mostra bem o estilo de compor de Fernando TRZ, mesclando arranjos e acordes jazzísticos com ideias em loop, criando espaços para que cada instrumento possa soar bem.

MM Moods, que leva a referência de seu criador, Marcelo Monteiro, parte de um belo tema de sax que se repete em leitmotiv ao longo da música. Os synths mixam muito bem nas linhas melódicas com os sopros e a percussão ajuda a criar a ligação ancestral e dar um movimento ao corpo, criando um ar leve e solto. Assim como na música anterior, tem momentos interessantíssimo de quebras, brincando com a estrutura, mas voltando sempre ao tema principal, com espaço para um solo de synth, sax e partes que soam como interlúdios de um espetáculo, com a flauta aparecendo de forma mágica.

Duas músicas com arranjos classudos, sintonia com a obra de músicos brasileiros como João Donato, Eumir Deodato e o já falecido José Roberto Bertrami (Azymuth), mestres que entenderam a universalidade da música brasileira e as colocaram em simbiose com o mundo, assim como se vê na música do Lavoura.

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